Tudo ou Nada: Filme é cinebiografia vazia de Eike Batista

Na onda das produções inspiradas em empresas bilionárias e seus criadores, Eike: Tudo ou Nada (2022) se arrisca em contar a jornada de ascensão e queda de um dos empresários mais importantes da história do Brasil. A trajetória de Eike Batista sempre foi marcada por capas de jornais e tabloides, seja por sua vida pessoal ou pelos negócios arriscados no mundo corporativo. O longa, porém, torna-se uma produção vazia ao não se aprofundar em nada.

Inspirado no livro biográfico escrito pela jornalista Malu Gaspar, o filme traz apenas um recorte da tumultuada vida de Batista. A história começa em 2006, quando o Brasil passava por uma expansão econômica com o descobrimento do pré-sal, e segue até a sua prisão em 2017.

Acostumado a uma vida de luxo e sucesso empresarial, Eike vê no pré-sal uma oportunidade de se aventurar no mundo do petróleo. Ele, então, cria a OGX, petroleira cujo objetivo era bater de frente com a pública Petrobrás e enriquecer ainda mais aqueles que já tinham nascido em berço de ouro.

A opção feita pelos diretores e roteiristas Andradina Azevedo e Dida Andrade é fugir de casos pessoais e focar apenas na persona de Eike enquanto empresário. Sua sede por poder e ambição descomunal é tratada quase como uma sátira, como bem pontuam logo no início do filme ao descrever os eventos de Tudo ou Nada como “bastidores do capitalismo”.

A aventura com a OGX mostrava o tamanho da lábia de Eike para arrecadar bilhões para sua nova empresa. Com base no diálogo e avesso aos fatos, ele convenceu empresários e fundos de investimento a lhe entregarem valores estratosféricos para investir em uma empresa que, desde o início, parecia fadada ao fracasso.

Nelson Freitas

Nelson Freitas como Eike Batista

Divulgação/Morena Filmes

Com Nelson Freitas, mais conhecido por papéis em comédia, se arriscando em um drama na pele do empresário, o longa muitas vezes –sem querer ou não– se assemelha a esquetes do extinto Zorra (2015-2020). A realidade do “submundo” empresarial brasileiro, que navega pelo ambiente político e está diretamente envolvido em casos de corrupção, são representados como sátira. Cenas nas quais Eike (Freitas) negocia privilégios com o governador Sobral (André Mattos, em clara referência ao ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral) são construídas no deboche, com o empresário discutindo o empréstimo de um jatinho milionário enquanto o político assegura sucesso em suas ambições corporativas.

O deboche fica ainda mais claro quando a narrativa dos diretores se divide entre a jornada de Eike e a história de uma família que viu no empresário um exemplo a ser seguido. O patriarca o enxerga como um ídolo, alguém que merece que todas as finanças guardadas na conta bancária sejam investidas como capital da nova OGX. Como a vida real mostrou, tal inocência cobrou um custo caro para aqueles que fizeram igual.

Eike: Tudo ou Nada tenta pincelar detalhes da jornada de Batista, mas nunca se aprofunda em nada. Isso fica ainda mais evidente ao tentarem incluir o famigerado romance de Eike com Luma de Oliveira. Como o retrato focado na petroleira impede que o relacionamento entre os dois, ocorrido anos antes, seja abordado, Carol Castro surge como a ex-sex symbol que conquistou o milionário em um delírio em formato circense. Por mais curiosa que seja a sequência, ela poderia muito bem ser descartada do corte final.

Vazia, a cinebiografia rasa pouco acrescenta ao folclore que se tornou a vida do ex-bilionário caído. Caso fosse uma minissérie, a história de Eike Batista poderia ser explorada com afinco e interesse, seja em suas aventuras com minério nos anos 1980 até a sua prisão por envolvimento em corrupção. Uma oportunidade perdida que parece empurrar o público para o livro de Malu Gaspar, muito mais completo e interessante do que o próprio longa.

Nelson Freitas

Eike: Tudo ou Nada

Trailer oficial

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