“Não Se Preocupe, Querida”: Quando a fofoca dos bastidores é melhor que o próprio filme

Longa de Olivia Wilde, com Harry Styles e Florence Pugh no elenco, chega aos cinemas nesta quinta-feira (22)

ANGELO CORDEIRO | @ANGELOCINEFILO Publicado em 21/09/2022, às 15h00 – Atualizado às 15h04

Dificilmente “Não Se Preocupe, Querida” entrará para os anais do cinema devido à sua trama. Sequer sei se o filme entrará para a história por algum motivo, mas uma coisa é certa, se entrar não será por escolhas artísticas porque, convenhamos, o novo longa da diretora Olivia Wilde (“Fora de Série”) requenta muita coisa que já vimos por aí, além do que, as fofocas de bastidores envolvendo o elenco parecem muito mais interessantes do que o próprio filme em si.

Se você não acompanhou as redes sociais nas últimas semanas talvez não tenha ficado sabendo sobre os episódios polêmicos da produção. Um deles envolvia os nomes da diretora e o do ator Shia LaBeouf. Wilde afirmou ter despedido o astro da franquia “Transformers” de seu filme devido às diversas denúncias de abuso por parte de suas ex-namoradas. A fala da diretora foi negada – e com provas – por LaBeouf: ele se retirou do projeto por conflitos de agenda. Não ficou legal para Wilde.

A outra polêmica se deu durante a premiére do filme no Festival de Veneza deste ano. Primeiro, a atriz Florence Pugh não compareceu à coletiva. Depois, o clima entre Harry Styles e Chris Pine durante as entrevistas não era nada amistoso. Todos pareciam estar presentes apenas para cumprir contrato e seguir com os protocolos, sem sorrisos ou afagos. Mas a bomba veio na noite de exibição do filme: a internet jurou ter visto o cantor cuspir em Chris Pine enquanto caminhava para se sentar ao seu lado. Ambos negaram.

O que fica evidente é que os bastidores de “Não Se Preocupe, Querida” renderam tantas histórias dignas de abastecer as páginas de qualquer tablóide inglês, que até esta crítica se valeu de três parágrafos para tentar ambientar você, caro leitor, na ideia que eu estou tentando desenvolver aqui: não importa o que o filme faça com seus atores, se a direção de arte e a fotografia são belas, se a montagem ajuda no desenrolar do mistério, o que o público quer mesmo é um documentário sobre as gravações.

Brincadeiras à parte, os atores Florence Pugh, Harry Styles, Chris Pine, Gemma Chan (sim, ela está no filme, bem escanteada, mas está) e Olivia Wilde trabalharam e merecem que seu esforço seja respeitado, por isso, a partir daqui, analiso a obra. Apesar de todos os problemas já citados, nenhum deles parece ter interferido diretamente nas atuações ou nas escolhas de Wilde. O problema recai mesmo é sobre a dose de obviedade do roteiro assinado por Shane van Dyke (“Titanic II”), Carey van Dyke (“Chernobyl”, não a série, o filme de 2012 mesmo) e Katie Silberman (“Fora de Série”).

A história acompanha Alice (Florence Pugh), uma dona de casa dos anos 1950 que vive uma vida perfeita com seu marido Jack (Harry Styles) em uma pequena comunidade onde tudo parece perfeito. A rotina da protagonista muda quando ela começa a se preocupar com a empresa glamourosa do querido marido, que parece estar escondendo segredos perturbadores por trás de tanto luxo.

Logo de início, o espectador mais atento irá perceber as semelhanças da história com o clássico “Esposas em Conflito”, de 1975, que ganhou uma refilmagem em 2004, intitulada “Mulheres Perfeitas”, estrelada por Nicole Kidman. Apesar de tudo ser perfeito naquela comunidade, há algo estranho no ar. O segredo do que se passa ali é guardado por Wilde até o limite. O que é um ponto positivo, não para ela, mas por fazer com que Florence Pugh possa demonstrar, mais uma vez, que é uma atriz que domina atuações do tipo, já que havia feito algo semelhante em “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite”, de 2019.

Além da ótima atuação de Pugh, há também de se destacar tanto a estética da fotografia assinada por Matthew Libatique (“Cisne Negro”), parceiro recorrente do diretor Darren Aronofsky, quanto a direção de arte da dupla Erika Toth (“Complicações do Amor”) e Mary Florence Brown (“Zola”), ambas evidenciam os tons pastéis e a vida perfeitinha até demais de Alice – uma referência ao País das Maravilhas? – só que essa estrutura polida não sofre abalos da direção de Wilde, ela é refém do roteiro.

O pior disso tudo é que Wilde parece confiar tanto na sua proposta que aposta todas suas fichas na revelação final. Até lá, ela joga com aqueles personagens como se tudo fosse muito original. Só que, a partir de certa altura, o espectador já percebeu tantas referências, remeteu a proposta daqui às ideias de tantos outros filmes, que passa a prever as jogadas da diretora, fazendo de “Não Se Preocupe, Querida” uma experiência modorrenta que só vale mesmo quando Pugh encara o personagem de Pine de frente.

Aliás, enquanto Pine é um canastrão, e seu personagem não exige muito além disso, Styles não consegue corresponder ao que seu personagem demanda. Não irei entrar em detalhes para evitar spoilers, mas após a revelação final, fica difícil acreditar que aquele personagem vendido pelo astro da música seria capaz de fazer o que fez, Styles não passa credibilidade. E aí fica difícil não se lembrar da primeira fofoca do filme: faz sentido que Shia LaBeouf tenha sido a primeira opção para o papel. O personagem é muito mais a vibe dele.

Em suma, “Não Se Preocupe, Querida” dá tantas e tantas voltas para, enfim, assumir o que é, que o resultado só irá impressionar mesmo os mais emocionados. Ao falar do machismo estrutural, Wilde se utiliza de artifícios previsíveis, que ela mesmo abandona, para deixar sua mensagem mastigada ao espectador. Ao final, a casinha já caiu, e por sabermos que existem histórias bem mais instigantes por trás de toda essa narrativa pomposa, fica a pergunta: que tal então nos entregarem logo o documentário sobre os bastidores, hein?


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  • “A Orfã 2: A Origem” (Estreia em 15/09)
  • “Não Se Preocupe, Querida” (Estreia em 22/09)
  • “A Mulher Rei” (Estreia em 22/09)
  • “Blonde” (Estreia em 23/09)
  • “Morte Morte Morte” (Estreia em 06/10)
  • “Halloweens Ends” (Estreia em 14/10)
  • “Adão Negro” (Estreia em 20/10)
  • “Amsterdã” (Estreia em 04/11)
  • “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre” (Estreia em 10/11)
  • “The Fabelmans” (Estreia em 23/11)
  • “Avatar: O Caminho da Água” (Estreia em 18/12)
  • “Glass Onion: Um Mistério Knives Out” (Estreia em 23/12)

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